terça-feira, novembro 2

falta de ar

Fosse apenas o desespero da ocasião nada haveria a temer.Sábado dei entrada no hospital de Cascais com dispeneia , uma forte dor no peito,e muita,muita tosse.O atendimento foi bom e rápidamente me injectaram uma hidrocortisona, e me puseram a aerosois.Seguiu-se uma radiografia aos pulmões e mais uma intravenosa,e outra dose de aerosois.Pelo meio o raspanete do médico, (e bem merecido) por eu me ter deixado chegar aquele ponto.Diga-se em abono da verdade que estiquei a corda ao limite, há imenso tempo que me sentia com falta de ar,e exausta.Quando veio a tosse devia ter ido imediatamente ao médico,mas resolvi ainda esperar três dias.Logo como é normal,a seguir ao crime vem o castigo.O resultado deste arrojo é uma infecção pulmonar que me obriga a estar em casa,super medicada,sem fazer esforços de espécie alguma.Bem-feita.Mas todo este latinório é para dizer o seguinte,durante o espaço de tempo em que decorreram os dois aerosois,tive numa maca mesmo á minha frente uma velhinha,transparente de magra,com um ar doce e cândido,leve e fragil.A páginas tantas,talvez pelas dores ou pelo cansaço de estar ali abandonada ,começou a repetir compulsivamente e com um ar ainda mais evangélico-"AJUDAI-ME"."AJUDAI-ME".Começou a doer-me a alma,o meu coraçãozinho de manteiga arrepiou-se todo,e senti outro tipo de falta de ar. Dei comigo a pensar que o que doi não é a morte,é sim a velhice e o abandono,a ausencia e a solidão.Imaginei-me um dia assim. Senti um enorme desespero.Fosse apenas o desespero da ocasião nada haveria a temer.

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